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Reportagem sobre a Coréia do Norte do ditador Kim Jong-Il - revista Veja

07-12-2010 13:12

 "A Coréia do Norte não é propriamente um país. É um grande quartel comandado por uma dinastia que se agarra ao poder pelo terror e escraviza todo um povo, mantido em condições mínimas de sobrevivência, em um grau de miséria que seria repugnante mesmo se medido pelos padrões da Idade Média. Boa parte dos recursos do país é canalizada para o pagamento dos prazeres do ditador Kim Jong-Il, o maior comprador individual do conhaque francês mais caro já produzido, o Rémy Cointreau, que custa 7000 euros a garrafa. Outra parte é designada à construção de mísseis e ao enriquecimento de urânio com o objetivo de produzir bombas atômicas. Norte-coreanos que conseguiram escapar para a China são as melhores fontes de informação sobre o cotidiano na fazenda de trabalhos forçados de Kim&Kim. Um deles, ouvido recentemente por repórteres do New York Times na cidade chinesa fronteiriça de Yanji, narra uma história que resume a crueldade de Kim&Kim e, ao mesmo tempo, dá conta da invencível força do indivíduo de enfrentar adversidades e sonhar com o futuro. O fugitivo relata que, contra todas as expectativas, ele e a família juntaram uma economia por quase duas décadas, guardando parte do miserável salário pago pelos capatazes norte-coreanos. Chegaram a ter o equivalente a 1560 dólares, uma fortuna de fazer inveja a cada um dos quase 23 milhões de súditos da dinastia Kim. Então, no fim do ano passado, com a intenção de financiar as despesas do estado, a Coréia do Norte desvalorizou brutalmente sua moeda. As economias de toda uma vida do infeliz coreano e de sua família foram reduzidas a um valor equivalente a meros 30 dólares.

Desde o armistício que suspendeu a guerra da Coréia em 1953, Kim&Kim já mandaram atacar alvos civis na Coréia do Sul pelo menos trinta vezes. Sem imprensa nem justiça, fechada aos olhos do mundo exterior e sob o toque de recolher permanente, a Coréia do Norte tem a mentalidade estacionada no estágio evolutivo da tribo – a única identidade possível entre o povo é a submissão à dinastia Kim. A miséria, a fome e a mortandade de crianças e velhos por desnutrição e doenças são escondidas sob montanhas de dados falsos e paradas militares marcialmente impressionantes. Segundo um estudo das Nações Unidas, 20% da população escrava de Kim&Kim estará em grave perigo assim que o inverno deste ano chegar, ‘Os norte-coreanos precisam de comida com urgência, não podem esperar um ou dois meses’, diz Haksoon Paik, do Instituto Sejong, cientista político sul-coreano baseado em Seul. Sempre que arremessam sobre seu próprio povo desgraças novas, como a desvalorização da moeda (comparável em seus efeitos à grande fome de meados dos anos 90, em que morreram centenas de milhares de norte-coreanos), a dinastia Kim e seus generais tentam desviar a atenção do fracasso monumental de seu comunismo de quartel bombardeando a Coréia do Sul – uma democracia capitalista de mercado cuja população, geneticamente idêntica à da Coréia do Norte, desfruta índices de educação e qualidade de vida iguais aos dos países mais desenvolvidos do planeta.

Na semana passada, havia mais autodesgraças ainda para ser disfarçadas com a tática de matar civis inocentes no desenvolvido país vizinho. O regime parece estar providenciando a troca de guardas no quartel. Sai um Kim e entra outro – e, a se manter a tradição, o que entra é ainda mais cruel e nefelibata* do que aquele a quem sucede. O mais provável novo chefe das atividades da Kim&Kim é Kim Jong-un, um sujeito reconchudo de 27 anos, de quem tudo o que se sabia até dois meses atrás era que estudou em caros colégios na Suíça, faz artes marciais assiste a filmes de Jackie Chan, joga videogame e dirige um Porsche em disparada pelas ruas desertas da capital, Pyongyang. Com os requisitos necessários para assumir o comando do quartel. Jong-um foi feito general quatro-estrelas sem nunca ter servido no exército. Segundo uma análise absolutamente inverificável, os generais mais linha-dura teriam ficado insatisfeitos com a decisão do pai de indicar Jong-um seu sucessor, e, para acalmá-los, o núcleo dirigente da Kim&Kim permitiu que lançassem alguns mísseis sobre civis da Coréia do Sul. Em reação tribal. Em se tratando da Coréia do Norte, pode até ser verdade.

Ao contrário do que fizeram em relação ao torpedo que lançaram contra a corveta sul-coreana Cheonan em março, no Mar Amarelo, que resultou na morte d 46 tripulantes, desta vez os norte-coreanos assumiram a autoria do ataque. Kim&Kim mandaram dizer que estavam retaliando uma manobra marinha de guerra do vizinho do sul. Na semana anterior, um grupo de cientistas americanos visitou, a convite dos norte-coreanos, uma moderna usina de enriquecimento de urânio a índices de pureza suficientes para que ele seja utilizado na produção de armas nucleares. O ditador norte-coreano Kim Jon-Il faz sempre essa mesma manobra. Finge que está bravo e que tem gente ainda mais brava que ele pronta para assumir seu posto. O Ocidente sempre se deixa enganar pela farsa. A leniência com Kim Jong-Il, no passado encorajou-a a pensar que, sempre que mostra força militar, consegue atrair negociadores para a mesa em condições menos desastrosas para seu quartel. Como uma economia coletivista, centralizada e indigente, a Coréia do Norte não consegue sequer alimentar seus escravos. A comida tem de ser fornecida por aqueles que o regime trata como inimigos, principalmente os irmãos genéticos do sul sobre cujas cabeças eles, com freqüência, jogam bombas. Deve ser uma forma tribal d agradecimento ainda não totalmente compreendia pelas arrogantes democracias capitalistas. Depois do afundamento do Cheonan, a Coréia do Sul decidiu interromper a doação de alimentos para a do Norte. Até membros do exército norte-coreano, que constitui 5% da população, estão recebendo rações insuficientes. A realidade mordeu. O Ocidente que se mexa, pois Kim&Kim não vão ficar sem seu conhaque Rémy Cointreau."

 

* O adjetivo nefelibata foi usado por Lima Barreto no livro Os Bruzundangas para designar aqueles literatos alambicados que desprezavam os processos simples, fáceis, de construção textual, preterindo o conteúdo à forma.

A palavra nefelibata tem origem do grego "nephele" (nuvem) e "batha", (em que se pode andar). Ou seja, aquele que "anda nas nuvens". Em literatura, diz-se do escritor que não obedece as regras literárias. No contexto geral, trata-se de uma pessoa idealista, que vive fugindo da realidade.

 

 

 

Fonte: Revista Veja do dia 1° de dezembro de 2010

Páginas 148 a 151